#2 - Sintecídio

Morfografia: Sintecídio

Data da ocorrência: 4 de Novembro de 2020

Estado de espírito antes do sonho: A ponderar se o caminho que estou a tomar vai-me levar a algum lado

Janela de sono: ~ 8 horas até ~ 18 horas

Duração do sonho: Curta (1 noite, até ao final da alvorada)

Corda de Escape: O amanhecer do sonho


Narrativa do sonho:

- Parte I -

O sonho começa quando eu estou a chegar ao Postlab e a primeira coisa que me fez questionar a realidade foi a minha inaptidão em saber se tinha chegado de carro ou de bicicleta, mas, visto qu'eu não dei por ela, provavelmente devo ter vindo a pé. Continuando... Na entrada esperava-me um amigo meu - Zion - junto dos meus sintetizadores. Eu não sei o que se devia a sua presença, mas, senti uma espécie de tristeza alheia no seu rosto, até perceber mais tarde, qu'essa emoção triste não lhe pertencia a ele, mas, sim, a mim.

- Boas... - Saudei o Zyon estendendo-lhe a mão para o cumprimentar
- Boas - Respondeu ele meio abatido enquanto eu olhava para os meus sintetizadores sem saber a razão deles estarem fora da sala e após um curto momento, ainda ambos à porta eu voltei a questionar pelo meu outro amigo e sócio
- O David? 
- Ele está numa meeting...
- Com quem?
- Não sei - respondeu Zyon suspirando e depois continuando - É man, meus pêsames
- Porquê? - perguntei sorrindo
- Pelos teus synths...
- O que têm os meus synths?! - perguntei d'uma forma ofegante
- Eles deixaram de dar
- Como? - desviando a minha atenção de Zyon para os meus sintetizadores - O qu'eles têm?!
- Não sei... O David deixou aí, para se levar a arranjar.
- Arranjar?! - Aumentei o tom de voz incrédulo com a situação - Como se foderam?! - e nesse momento o David abre a porta e diz-me - Boas, eu já falo contigo, estou ocupado e voltou a fechar a porta. Zyon não pareceu incrédulo como eu e afirmou - Parece importante... Deixa-os acabar.
- O quê?! - reagi eu sem noção do que se estava a passar e nesse momento Zyon meteu-me a mão no ombro e disse para o seguir para o exterior

Fora do postlab, reparei que estava de noite e outra coisa que me intrigou foi não saber ao certo s'eu tinha chegado ao Postlab de dia, ou de noite, mas, supos que devia ser de noite, devido eu ter o hábito de dormir de dia. Como resposta à crescente ansiedade que me envolvia acendi um cigarro e o Zyon questionou-me - Ainda fumas?!
- Sim - Respondi eu olhando para ele sem entender e ele continuou
- É pá, se precisares, diz qualquer coisas, eu sei que é fodido, perder os synths.

Eu pestanejei e voltei a preocupar-me. Agora, já não sabia se estavam a brincar comigo acerca de tal. Quer dizer, podiam pregar uma partida com outra coisa, mas, com os sintetizadores, é que não. E enquanto me distraía com os meus pensamentos nem dei pelo Zyon sair... No outro lado da estrada ele acenava-me despedindo-se de mim. Encolhendo os ombros, acenei de volta e continuei a fumar. Mas, algo de estranho passou-se... Eu não sentia os meus pulmões... Puxei e puxei vários tragos e nada... Parecia que o cigarro não tinha nicotina e qu'eu nunca tera o fumado. Incrédulo com a situação e sem saber lidar com o vício praguejei - Oi, caralho?! - E desisti da ideia voltando ao Postlab.

Agora, no Postlab, o meu amigo David já estava livre, mas, ele não estava só. Afinal o Zyon tinha razão, mas, uma coisa qu'eu achei tremendamente parvo, foi vê-lo ele de robe(daqueles que o pessoal usa nos SPA's e nesses sítios luxuoso) mais os restantes dos estranhos. Sem saber como reagir mantive-me calado, também não quis interromper pois não sabia o que se devia esse aparato ao certo. Depois de terminarem os últimas argumentos, eles despediram-se com um comprimento de David e seguiram para o exterior e só foi, depois de saber qu'eles estavam ausentes qu'eu perguntei - Quem eram?!

- É o pessoal do alarme?
- Alarme?! - repeti temendo o pior
- Sim, o Postlab foi assaltado - disse-me ele desanimado
- Assaltado?! - respondi eu e quase por instinto entrei para o interior, mas, não vi indícios de assalto. Tudo parecia bem e no seu lugar, só os meus sintetizadores pareciam ser vítimas de tal. Voltando para fora eu contestei - Fomos, assaltados?!
- Sim... - Assentiu, ele. Indiferente à minha dor

E quase como instinto de sobrevivência peguei num deles e levei-o para dentro. Liguei à corrente e tentei ligar, mas, nada. As luzes cintilantes não brilhavam e a sombra da minha dúvida começava a ganhar proporções. Quando voltei lá fora para pegar noutro para experimentar, o meu amigo David tinha desaparecido, eu chamei-o várias - David, David - mas, ele não dava sinais de estar lá e então, levei as minhas mãos ao bolso para buscar o telemóvel para lhe comunicar. Não, estava no bolso suposto, então comece a procurar nos outros e nada. Não tinha o telemóvel, nem sequer as chaves do Postlab e aí, não só fiquei ainda mais preocupado, como também fiquei com um sentimento de culpa que me invadiu em forma de monologo na minha cabeça «Queres ver que usaram a minha chaves para abrir o Postlab» Duvidando de tudo e de mim mesmo, eu comecei a tremer. Agora já não sabia se tinha trazido o telemóvel, como as chaves e praguejava no processo, auto flagelando-me psicologicamente. No limite dos meus nervos, o Zyon apareceu.

- Estás bem?! - Questionou ele preocupado comigo e eu olhando para ele com o meu olho esquerdo a tremelicar, indício de cansaço extremo ou de raiva e de terror respondi.
- Acho que não, meu... - Dizendo d'uma forma fatalista enquanto me recolhia no chão d'uma forma trágica e elanguescente. E algo em mim dizia, que não eram só nervos à flor da pele e uma catatónia iminente. Algo em mim corria pelo meu corpo... Uma sede que não podia explicar, uma fome que não conseguia entender «arreia na boca, arreia na boca» ecoou essa frase na minha cabeça até o Zyon me perguntar - Já bebeste hoje? - E meio zonzo já esticado no chão abanei a cabeça.

O Zyon, nesse momento entrou noutra sala do Postlab e trouxe-me o qu'eu julgava ser vinho no meu suposto copo habitual qu'eu tanto estimo... E agachando-se no chão ajudou-me a ingerir - Toma, man... - E eu bebendo aos poucos comecei a regenerar o meu vigor. Quando terminei o copo, quase como magia me ergui bruscamente e Zyon avisou - Cuidado, man... Tem calma - E olhando nos olhos com uma energia nunca antes sentida, eu lhe perguntei - Isto está minado?! - E Zyon abanou a cabeça - Não, man... Isso é sangue.
- Sangue?! - Repeti eu, rindo-me e ele corrigiu-me - Fala baixo, man... Ninguém pode saber
- De quê?!
- Que somos vampiros...
- É dread, não me coles mocas... - disse rindo pois por momentos tinha-me esquecido dos sintetizadores até ele me relembrar - Mano, se precisares, eu tenho uns connects para te safar uns guitos fáceis?!
- O quê, man?! - reagi, eu totalmente fora, mas, por um lado intrigado, devido à minha curiosidade inapta e claro, se os sintetizadores estivessem mesmo estragados, eu precisava de dinheiro e agora, era a pior altura pois  eu estava desempregado no sonho como na realidade. Mais à frente eu comecei a crer no qu'ele me dizia, não com a minha cabeça, mas, com o sangue que me corria dentro de mim. Eu sentia-me mais ágil, mais astuto tal e qual um gato e para me comprovar que não me estava a mentir, Zyon lançou-se quase instantaneamente nas sombras e eu senti-me tentado a fazer o mesmo e mal pensei, agi num ápice chegando célere junto dele - Oi, caralho - falei eu junto a ele na penumbra e ele voltou a corrigir-me - Fala baixo, man - E eu apercebendo-me da gravidade da situação, caso ele tivesse  mesmo razão, fez-me moderar o meu comportamento. Então, assenti com a sua sugestão e segui-o por sítios que nem sabia que existiam em Aveiro.


- Parte II - 

Estávamos em casa de Zyon, tínhamos entrado pela varanda. Quando ele começou a falar com os seus contactos eu pedi-lhe para ele ligar ao David, visto qu'eu não sabia do paradeiro do meu telemóvel nem das chaves. E aí voltei-me a lembrar que nem sequer tinha fechado o Postlab e subitamente falei-lhe - Man, eu esqueci-me de fechar o Postlab... Liga para o David para ele vir fechar, eu não tenho as chaves. - Zyon sorriu para mim pela primeira vez e confortou-me - Não te preocupes, eu mando uns amigos meus vigiarem.
- Amigos?! Que amigos, man?! - contestando paranoico e ele reforçou a sua ideia - Chilla, man... Porque razão eu te ia mentir?! - Eu não tinha razões para descrer de tal, mas, a minha preocupação sufocava-me - Liga ao David, por favor... - E ele suspirou e explicou - Já tentei, mas, ele não atende.
- Onde é qu'ele está?!
- Não sei, man - respondeu, Zyon - encolhendo os ombros e eu voltei a entrar em pânico prestes a gritar, Zyon percebeu isso e chamou-me à razão - É man, tem calma... - E eu olhei com ele sem esperança nos olhos e ele tentou persuadir-me - Mas, queres que te ajude ou não?!
- Como?! - descrendo
- A arranjar guito.
- Como, Zyon?! - E ele suspirou - Man, tem calma, senta-te aí e deixa-me trabalhar.

Eu assenti, ou pelo fiz o esforço para tentar. Enquanto ele trabalhava eu distraía-me a olhar para a decoração da casa dele que já não me lembro ao certo do que era, como faço em qualquer outra casa que nunca visitei, à medida qu'ele digita no telemóvel e no computador com uma velocidade ofegante. Eu senti a necessidade de o questionar o qu'ele estava a fazer, mas, como já estava tão resignado com tudo, não quis saber de más notícias. Passando uma certa quantidade de tempo que não sei dizer se foi pouco ou muito, ele surpreendeu-me com boas notícias... Falou-me que tinha dois clientes que pagavam bem pelo serviço. Eu não quis saber do serviço, mas, sim da quantia, afinal de "contas", estava desesperado... Não sei ao certo quanto era, mas, deve ter sido mais que o suficiente pois eu mostrei-me interessado e esperançoso, embora em relação ao serviço, eu retrai-me um pouco. Primeiro, por não crer em tal, segundo pela minha saúde e terceiro, pelo trabalho. Zyon explicou-me rapidamente que envolvia eu dar um pouco do meu sangue "vampírico" a humanos dispostos a pagar. Eu duvidei de tal questionando-lhe porque razão precisava de mim, s'ele é um vampiro também e ele referindo o obvio, qu'era eu que precisava do dinheiro e era eu que tinha de o fazer - Amigos, amigos, negócios à parte. - Percebendo a sua deixa achei mais que justo. Afinal, eu não gosto de depender de ninguém, e não tenho problema com o trabalho. O único problema é que eu tinha de ir buscar uma amiga dele, que não só ia-me explicar a arte do trabalho, como me ia instruir e trabalhar comigo. Não sei s'isso me fez sentir melhor ou pior como pessoa, mas, senti-me, menos só e um pouco curioso. Zyon, deu-me as localizações para encontrar a amiga dele e para  nos comparecemos no randez-vous estabelecido com os seus clientes para efectuámos o trabalho. Eu voltei a questionar o porquê dele não a telefonar e ele explicou-me do sigilo vampírico e das nossas normas. Eu temi pela minha vida, mas, ele inspirou-me, ou deu-me a sua bênção mascarada no comentário que fez acerca dos meus talentos. Disse qu'eu tinha uma habilidade soturna demasiado boa, para um novato, talvez melhor que os outros vampiros. Eu achei isso um elogio e relacionei-o, também, com a minha introversão e à minha natureza reservada. Aceitando o plano, eu saí de casa dele pela porta de saída e usei a sombra existente para me camuflar em direcção à casa da amiga dele.

- Parte III -

E como na maior parte dos sonhos, às vezes uma pessoa perde o fio à meada, a ilusão do inconsciente, o trance hipnótico e as brincadeiras de Morfeu, eu dei por mim na casa da suposta amiga do Zyon. Não me lembro do percurso que tomei, mas, sei bem, que fui invisível... Tendo várias memórias fictícias(do sonho) de me ver sempre rente ao chão,  esgueirando-me como se fosse um gato, como o de olhar para baixo e sentir ligeiras vertigens, misturadas com espanto e adrenalina. Não é qu'eu tivesse medo de alturas, mas, nunca na vida me vi em tais patamares. Talvez noutros sonhos, mas, como não me lembro e não tenho memórias vívidas existentes, não me baseio mais, sobre tal. O Zyon pediu-me para não bater na porta para não dar a conhecer a minha presença à vizinhança, mas, sim, a esperar pelo seu convite. Na penumbra, esperei o que foi preciso e mais uma vezes não sei se a espera foi curta ou longa, mas, a minha paciência não se ralou muito, por isso, não deve ter sido muito... Sem contar, fui surpreendido por uma voz feminina na minha cabeça «A questionar-me pela palavra chave» Zyon tinha-me explicado para eu dizer a palavra-chave que não me recordo e com um enorme pavor e descrença eu falei-a no meu subconsciente e ela aceitou, dando-me no final as instrucções para entrar nos seus aposentos...

Sem se introduzir propriamente ela deixou-me estar à vontade em casa, enquanto se preparava. As divisões da casa, estavam desamparadas da luz, só com pouco de luminosidade criada pelas velas que não se rendiam a escuridão e lutavam ainda para irradiar a treva. Eu fiz o mesmo que tera feita na casa de Zyon, olhei para decoração e falei com a minha cabeça para me entreter, até a suposta amiga do Zyon, chegar... Quando ela chegou foi uma graça para contrariar todo o infortúnio anterior. Não me refiro à sua beleza, nem aos seus maneiros provocativos, mas, sim à sua indumentária e ao seu aspecto melancólico. Parecia uma daquelas moças emo da década passada. Ri-me para mim, não de forma a insultar, mas, sim, de espanto... Aliás, eu pensava qu'essas tendências tinham entrado em extinção, mas, por um lado só me fez mais crer no plano, por este tipo de personagens. E isso intrigava-me saber que uma dessas antigas amigas do Zyon também estava metida nisto.

Sem fazer me perder tempo, ela explicou o sucedido. Que íamos levar choques na cabeça, pois isso, criava uma reacção em "nós" vampiros em que expelíamos o sangue, sem o estragar e ele tornar-se pútrido. Existia uma lengalenga qualquer que através desse método o "nosso" sangue maligno não perdia as suas propriedades vampíricas ao entrar em contacto com meio exterior. E eu, como sortudo qu'era, ia receber a minha primeira instrucção vampírica, de como lidar com a situação. Ela não falou muito, não sei se era tímida ou não, mas, vi qu'ela não tinha interesse nenhum em tecer conversas fora dos seus interesses. E assim, ela explicou-me que o processo ia envolver dor e qu'eu tinha de me controlar para não deixar o meu instinto animal tomar conta de mim. Ela explicou-me qu'eu lhe ia segurar na vez dela, e que na minha vês eela ia-me fazer o mesmo, como se fossemos maluquinhos. Eu questionei porque razão, não usaríamos cintas para nos prender e ela explico sombriamente que elas não iam aguentar sozinhas com a nossa fora sobrenatural. Também me falou em mantras e tácticas para manter a besta interior no domínio para lhe dizer que o que ela ia sentir não era perigo nem afronta, mas, sim uma cabala para no futuro esta lucrar mais. No final da instrucção e da preparação ela olhou-me docemente noss olhos e disse-me - Se tu falhares... Nós matamos-te... Não existe tolerância para erros - Eu assenti, levando-lhe a sério, mas, uma parte de mim a censurava e até mesmo zombada da forma como ela tinha transmitindo a mensagem. Fez-me lembrar aquelas garotas emo que se diziam suicidas para chamar a atenção e davam a entender que eram más, mas, não faziam mal a ninguém...

- Parte IV -

No auge da noite, mais uma vez quase como teleporte eu estava com o Zyon numa casa estranha e demasiada irreverente. Fez-me lembrar aquela cena do Matrix em que o Morpheus leva o Neo e a Trinity falar com o Merovingian. Só que desta vezes, o casal que nos ia receber eram apenas meros mortais e nós, só íamos cumprir a nossa parte do negócio, pois havia mais lucro dessa forma. Só achei um bocado parvo, estarmos todos mal vestido sem grandes aparatos megalómanos como era suposto nesta situação. Mas, não deixou de ser agradável a recepção... Senti-me cortejado pela hospitalidade bonita que nos favoreceram, nem eu mesmo sabia qu'era possível tanta amabilidade concedida por humanos, que não eram meus amigos. A senhora que era uma dos dois clientes mostrou-se curiosa com a minha aparência e "tertúliou" um pouco com o Zyon acerca da minha existência. O senhor, apenas mostrou-se contente por saber qu'eu ia-lhe servir... O seu sorriso fez-me questionar a minha decisão, mas, eu tinha de arranjar os meus sintetizadores. Estava-me a burrificar para sangue e essas modas "vampíricas" qu'eu não queria saber. E aí amiga de Zyon como se estivesse dentro da minha cabeça tranquilizou-me com uma voz calma e penosa - Não te preocupes, vai tudo correr bem. Eles só querem a dose deles, mais nada.

Eu assenti e sorri - Não há problema... Desde que me paguem.

E no final do Zyon dialogar e estabelecer os termos do contracto, o senhor escoltou-nos para a sala do evento. Enquanto isso, a senhora foi pelo caminho oposto, eu desconfiei de imediato, mas, a amiga do Zyon cujo nem sabia o nome voltou-me a falar - não te metas... - e eu contestei impávido e sereno - Com quem?

- Mete na tua vida e concentra-te na tarefa... Eles são humanos... Não nos podem fazer mal. - e pela primeira vez desde que a conheci ela tocou no meu braço e fez-me sinal par avançar à frente dela e eu fui... 

Lá dentro da sala que parecia um altar obscuro, daqueles onde se sacrifica algo a alguém, lá estava a mesa de operações, um capacete estranho, uma espécie de máscara respiratória ligada a um tanque e um terceiro humano qu'eu não estava pronto para ver. A amiga do Zyon, sem hesitar deitou-se na maca de barriga para cima com a cabeça fora dos limites desta e meteu-se pronta. Enquanto o homem preparava o experimento, Zyon ordenou-me - Segura-lhe as pernas, eu seguro-lhe os braços. Eu assenti e fui para junto da parte de baixo da maca, onde os seus pés delimitam o seu berço, e segurei os tornozelos. Zyon voltou a reforçar a ideia que era para fazer força e não baixar a guarda. Eu assenti de novo e levei a tarefa a sério. Enquanto o terceiro humano finalizava os preparativos, usando várias cintas para atar o torso e a cintura da amiga do Zyon, a senhora finalmente reuniu-se connosco na sala. O senhor felicíssimo recebeu-a debaixo da sua asa e entusiasmados com a a situação meteram-se a postos. O terceiro humano assentiu que estava todo pronto e o Zyon avisou-me - Vá, mano... Prepara-te, isto pode ser complicado - e eu assenti engolindo ar em seco, Zyon esperou um pouco e deu sinal ao operador. O terceiro humano activou o mecanismo para dar os choques e a amiga do Zyon começou a estrabouchar convulsivamente. Espasmos e movimentos bruscos imanavam do corpo da amiga do Zyon, por um lado senti pena, por outro, espanto de ver o sangue a ser conduzido pelo tubo da máscara até o tanque, depois quase que vacilei - Man, olha aí! - alertou-me Zyon para me concentrar na tarefa e no final daquela cena toda... A amiga do Zyon suspirou e sorriu orgulhosa de si mesma... Zyon sorriu para ela e eu fiquei sem reacção. Enquanto isso o casal olhava captivado para o vinho do diabo que agora estava instalado no tanque... O terceiro humano, pegou neste, e levou-o para outra sala... Nessa pausa, a amiga de Zyon regenerava aos poucos, bebendo uns tragos de sangue de um cantil de bolso de whiskey que Zyon trazia consigo. Eu observava ela bebendo fascinado com tudo o espetáculo e também tirava notas mentais de tudo. Já estava a pensar que tipo de cantil ia arranjar, já que tinha um copo todo pomposo pensava num para o complementar. E perdido nos meus pensamentos, nem dei pelo terceiro humano voltar com um tanque novo e com a máscara para me extrair os meus fluxos sanguinários. Eu assenti para Zyon e sorri para o casal, dando a impressão que não os ia deixar ficar mal. Deitei-me na maca para levar com a terapia. O terceiro homem atou-me com as cintas e meteu-me máscara com o tubo ligado ao tanque, tal e qual tinha feito com a amiga de Zyon e no final de ambos me segurarem as mãos e os pés... Zyon questionou-me - Estás pronto? - E eu olhei para Zyon sorrindo com a cara tapada e assenti. Zyon olhou para o terceiro humano e este activou o mecanismo...

O primeiro choque, confesso que foi algo ridículo de tolerar. Parecia que tinha levado um biqueiro nos colhões, mas, só que eles, estavam dentro da minha cabeça e não entre as pernas... Estrabouchei cadavericamente e eles esperaram um pouco, para dar a segunda dose. O casal ficou meio assustado e preocupado, mas, Zyon os tranquilizou e olhou para mim ainda segurando os braços e perguntou - Estás fixe? - o meu orgulho ou a minha necessidade por dinheiro falou por mim e eu assenti contra a minha natureza. Zyon inspirou fundo e fez mais força, olhou para o humano e fez-lhe sinal. E este activou pela segunda vez o mecanismo.

Eu gritei com uma voz tão desalmada que acabei por quebrar a máscara, ou com os músculos da cara, ou com os decibéis do meu grito. A amiga de Zyon ficou indignada comigo e Zyon ficou desiludido - É man! - mas, eu já não era eu. E o humano aterrorizado comigo sem querer da minha existência acionou o mecanismo pela terceira vez. Do meu corpo um sismo ressoou pela maca toda e eu oscilei como uma onda e Zyon e amiga dele quase me largaram durante aquele impulso de energia. Nesse momento da minha garganta um jacto de sangue foi expelido em direcção ao casal... Zyon olhou para o mestre de cerimónia e praguejou - então, caralho?! Eu disse-te para activares? - o terceiro humano amedrontado abanou a cabeça e depois olhou para o casal d'uma forma embaraçosa, embora profissional. Mas, este casal, não levou a mal, alías, gratificados com uma amostra grátis que tinha voado para a cara deles, eles deleitaram-se nos seus componentes, enquanto eu sem saber onde estava, agora respirava com dificuldades...

Quando estava prestes a recuperar o folego, o barulho d'uma sirene mandou a minha respiração para os extremos do stress. Zyon e a amiga dele, começaram a desatar as macas, e o casal, sem pensar duas vezes, ainda com o sangue na minha cara fugiram da sala, o terceiro humano, fez o mesmo após activar um botão e trancar-nos lá dentro... Todo rebentado psicologicamente, eu perguntava ao Zyon... - O que se está a passar, man?! - E ele respondeu - são, eles... 

- Eles... qu-em? - dizendo com a respiração atribulada e os meus nervos em franja. A amiga do Zyon falou - cala-te, poupa-me os teus papos - e eu farto e cansado suspirei um suspiro de dor. Zyon olhou para amiga e perguntou-lhe - ainda tens mais?! - e ela assentiu, passando o resto que tinha da garrafa para mim. Eu bebi um pouco e eles acabaram-me de soltar da maca. Zyon e amiga dele fizeram um buraco numa das paredes da sala e continuamos o resto do caminho, assim nesses termos destructivos, até sair para exterior, quer dizer, eles, pois eu estava um autêntico farrapo... Só quando alcancei a liberdade é que as forças começaram a reaparecer e em bom tempo. Porque estava a ficar de dia. Zyon e a amiga disseram-me que o plano tinha dado merda e que nós tínhamos de encontrar refúgio. Eu farto destas atribulações, recusei! Aleguei que queria o meu dinheiro e por não o vê-lo, nasceu em mim um ódio e uma raiva interior que exigia retribuição. Zyon e a amiga olharam para cima para os últimos restos da noite e sem proferir uma palavra correram em direcção à penumbra... Eu fiquei totalmente irritado, mas, por um lado, percebi o frenesim todo. Algo dentro de mim implorava para eu voltar às trevas. Os meus pelos erriçavam-se de tal maneira, não como plantas que se abrem ao sol, mas, como demónios que se contorcem perante ao magno Sol que subia lentamente.

E aí eu pensei em duas coisas... Nos meus sintetizadores e no meu amigo David... Então, voltei para dentro e comecei a vaguear pelo labirinto d'onde fomos recebidos tão bem, e que agora, eramos considerados maus convidados. O frenesim diabólico tentava estrangular os meus pensamentos, mas, os meus dedos eram mais convictos e imploravam para tocar nos meus sintetizadores. Invadindo a casa de qual tinha sido convidado, pessoas com armas cobriam cada canto da casa e eu para evitar problemas, escondi-me nas sombras gentis que me davam a sua guarida. Pouco a pouco esgueirei-me pela casa e encontrei uma divisão que estava decorada com bugigangas quiçá mais caras que os meus sintetizadores. E vendo um cofre encostado a uma secretária, eu lancei-me possuído em sua direcção. Lembro-me de Zyon dizer que eu era bom a esgueirar-me com um gato. agora só falta saber se tinha a força de um tigre para abrir o cofre. E com murros atrás de murros eu pouco a pouco impos a minha supremacia no metal. Na minha cabeça duas forças lutavam entre si. A vontade de me fechar num buraco até à noite vir e beber sangue dos mortais. E outro, que imanava dos meus dedos e viajava até ao meu coração necromântico, sem passar pela minha cabeça e ser taxado pelo meu ego. Totalmente isento da sua malevolência. Eram os meus arpejos, os meus acordes, as minhas melodias, os meus ostinatos, a minha paixão, os meus sintetizados. Tanta e tanta fome de tacto corria sobre mim, ao ponto de fazer as mulheres invejarem os meus sintetizadores pela devoção e carinho qu'eu tinha por esta maluquice toda... E finalmente quando consegui partir o cofre, outra sirene começou a gritar que tinha sido violada, mas, eu não quis saber, pois lá dentro estavam maços de dinheiro, joias e barras d'ouro... Repentinamente, abri uma gaveta da secretária e peguei na primeira coisa que desse para guardar uns maços e meti alguns nesse aglomerado de tecido. E depois por reflexo dos meus hábitos de não gostar de portas abertas, tentei fechar o cofre e foi aí que reparei n'algo incrédulo que estava lá dentro - uma joia massiva em forma de cruz - a minha curiosidade lançou as minhas mãos sobre ela, pois uma espécie de calor seduzia-me a tocar-lhe, mas, antes de sequer provar esse calor que ficava mais e mais quente à medida que as minhas falanges se aproximavam, ouvi vozes e o meu lado animal olhando de esguelha para o exterior, fez-me lançar um som primitivo levando-me a perder o controlo de mim mesmo... 


Quando cheguei ao exterior, o sol já anunciava o inicio de mais um dia... Mas, eu já nem queria saber se ia chegar bem ao não. Sentia-me ausente... Dentro d'um animal que corria contra a minha vontade louco e possesso de terror... Via-me na terceira pessoa a distanciar-me no horizonte enquanto o sol se tornava mais e mais nefasto... Senti-me perdido, senti-me a naufragar-me no cosmos... Como se estivesse dentro d'uma sonda que se perdia no espaço tempo... Lentamente, senti Aveiro andar sobre os meus passos. Vi-me a distanciar do meu eu... E não me lembro de mais nada.

- Fim -

Significados e morais qu'eu interpretei: 

- A necessidade humana de integração social e de estabilidade financia apesar d'Eu não me preocupar muito com isso (agora uqe voltei para casa dos meus pais, perdendo o poder de compra e a alguma da minha liberdade).

- Os sintetizadores significam o meu verdadeiro amor, enquanto o acto de cooperar com tal esquemas, significa o quanto eu estou disposto a ir para preservar a luz da minha vida. Por um lado senti uma necessidade imediata de querer arranjar um trabalho qualquer, mas, o esquema que me meti no sonho, fez-me crer que vai haver sempre uma forma de resolver um dilema. 

- A fuga, reflecte-se possivelmente à minha ansiedade e ao meu jeito de me autossabotar em muitas das coisas qu'eu faço. O Vampirismo reflecte-se no meu estilo de vida nocturno solitário

- As transfusões de sangue referem-se à moeda de troca respetivamente às minhas habilidades ou até mesmo à admiração externa de certas pessoas.

- Os humanos desejosos por tomar o meu sangue e da outra vampira, talvez refere-se ao tabu das coisas emaranhada na satisfação prazerosa de tais acções que podem ser consideradas infames, ou não. Os tais perversos caprichos humanos que escondemos por: medo, vergonha, factor bizarro, ou até mesmo intenções sinistras. 

- A indiferença do meu amigo face à minha tristeza(qu'eu levei a mal, mas, depois percebi a razão) revela possivelmente a capacidade qu'ele tem a mais que eu, de saber como lidar com pessoas. tal e qual o de saber negociar, bem o seu ponto de vista, não caindo em armadilhas emocionais, nem em pressões externas ligeiras.

- A jóia em forma e cruz representa a dualidade... A salvação e a condenação... O calor que aquece e o calor que queima, a luz que revela e a luz que cega.

Conclusão: 
Quando acordei olhei para debaixo da minha cama para ver se tinha o dinheiro. Estava iludido que tinha sobrevivido e que tinha o dinheiro para reparar os meus sintetizadores. Depois percebi que tinha sido tudo um sonho e ri-me.

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